segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Aborto espontâneo

Tão... Mas tão verdade...

Ter um aborto espontâneo, um aborto por gravidez ectópica, ou qualquer outro, não é visto por quem está de fora e nunca passou por isso, como a perda de um filho, é apenas algo que acontece muito mais do que imaginamos e a muitas mulheres. É normal, natural, uma forma do corpo recusar algo que não está bem concebido...
Rapidamente se ultrapassa, dizem... depressa conseguiremos engravidar outra vez, e dessa vez é que vem o menino (ou menina), perfeitinho como tem de ser...
Ter um aborto espontâneo (principalmente se for nos primeiros 3 meses) não dá direito a nada, nem ao tempo devido para se superar a perda, nem a perdê-lo com a dignidade e o respeito que a situação merece - quando sofri o o primeiro aborto espontâneo (7s) por uma gravidez ectópica, estive internada 5 dias no hospital, enquanto o meu corpo decidia se resolvia o assunto por si ou precisava de ajuda médica para isso, estive 5 dias num quarto, no meio de duas grávidas que esperavam o nascimento de seus filhos e estavam internadas por precaução... Como já tinha uma filha, não foi importante, e como engravidei da terceira vez um mês depois e consegui manter até ao fim, o filho abortado foi "esquecido"; quando sofri o segundo (9s), já tinha duas filhas, logo não foi grave, apenas "uma pedra a mais no sapato"...
Se for expelido pelo corpo naturalmente, menos importância tem...
Abortar espontâneamente, não dá direito a ser tratada por mãe, porque mãe, só é mãe de filho nascido.

Sofrer aborto, depois de já se ter filhos, não é do pior, porque pior, pior mesmo, é para quem perde e não tem nenhum, é para quem não consegue ter filhos, é para quem perde um filho depois dos 3 meses de gravidez (onde o feto já está desenvolvido), é para quem perde um filho nascido, seja com 1 ano ou com 40 anos, isso é que é mesmo muito pior (claro que sim, ninguém discorda, certo? Eu não! Agora, ninguém se sente melhor por ouvir isso quando está a abortar). Tenho duas filhas, e não quero, sequer, imaginar como seria perdê-las...
No entanto, já perdi dois filhos não nascidos, não completamente desenvolvidos, e a dor que senti não me pareceu muito diferente da dor de perder um filho noutra situação, porque a dor, essa dor, que me pareceu tão profundamente intolerável, inconcebível, indescritível... essa dor que nos dilacera o coração, nos incapacita... Essa dor, ninguém tira, ninguém alivia, nada a consegue abrandar, a não ser o tempo e a nossa própria aceitação, resignação e auto-cura.
Tentar aliviar a nossa dor com as situações acima descritas, não nos ajuda em nada, apenas nos complica mais, fazendo-nos sentir incapazes, com a sensação de que não temos o direito de sofrer, porque não foi assim tão grave, a situação resolveu-se porque tinha de ser, e há situações tão piores, que a nossa não passa de um simples contratempo...
Só quem passa por isso sabe o que é a dor de perder um "feto", que para nós já é um filho a partir do momento em que nos sabemos e sentimos grávidos (família). Só quem passa por isso sabe o que é sofrer por um ser minúsculo que ainda não desenvolveu, cresceu o suficiente ou nasceu, mas que já é o nosso mundo...
Não descurando a preocupação das pessoas que nos rodeiam, que tentam a todo o custo, incluindo usar as expressões e frases já descritas, para nos tentar animar... Saibam: Obrigado pela preocupação e esforço, pelo apoio e carinho, mas não existem palavras para suavizar uma situação de aborto espontâneo, seja ele de que forma for... Só o tempo, a aceitação e o amor podem ajudar a ultrapassar uma situação destas. Podem falar sobre o assunto (pelo menos comigo). Não façam disto um assunto tabu. Cada um tem o seu tempo e forma de superação... Para mim, falar/escrever/partilhar é uma delas.

Aborto Espontâneo é perder um filho, independentemente de tudo o que possam dizer para o justificar... Independentemente de ter direito ou não a um funeral... Independentemente de ser ou não um mal necessário... Independentemente de ser ou não a resolução de possíveis malformações... Independentemente da forma como se dá...

Perder um filho, é perder um filho, independentemente da forma como se perde ou da idade/tempo que tem.

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umapersonalidadeimperfeita.blogspot.com

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