quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A minha vida perfeita, de tão imperfeita...

A minha família é a essência da minha vida, é ela que me dá força todos os dias, para continuar, para não desistir, para viver, para não me deixar embrulhar pela escuridão da imperfeição...

Estar desempregada há três anos, é das situações mais complicadas por que passei, já estive desempregada antes, mas não durante tanto tempo, nem em situação igual. Das outras vezes, a duração foi de um ou dois meses, a mais comprida foi quando estive grávida da primeira filhota, e durou até ela ter 15 meses, mas nessa altura as coisas não eram tão atribuladas, e como estava com ela em casa, passou-se bem melhor. Agora, tenho duas filhas, e uma está na escola outra no infantário, e eu, estou aqui, em casa, a fazer um esforço sobrenatural, para não andar a bater com a cabeça nas paredes.
Tirando estes percalços, sempre trabalhei (desde que deixei a escola), e sempre me imaginei a trabalhar, queria muito construir uma família, ter filhos, mas acreditei fielmente que o faria, sem nunca sair do rol trabalhador, queria ser uma mãe trabalhadora. Neste momento, essa certeza, deixou de existir para passar a ser um sonho, uma utopia, um vislumbre no horizonte distante...

Tenho a sensação de que se estivesse a trabalhar conseguia ter a casa mais organizada, mais limpa, mais tudo... Estar em casa assim, sem emprego sem objectivos profissionais definidos, sem esperança de conseguir sair desta situação, está a fazer com que perca a fé em mim, a levar-me pelo caminho da solidão, da indecisão, da desmotivação.... Aquela sensação estúpida, de que não tenho o que fazer (quando tenho imenso o que fazer em casa, mas não tenho a mínima vontade ou motivação para isso), ajuda imenso ao estado depressivo em que teimo não entrar, mas que me bate à porta, todos os dias, depois de deixar as miúdas na escola.

Já tentei ocupar o tempo com várias actividades, mas nada me satisfaz, nada me ajuda a expulsar esta sensação de inutilidade, de fraqueza, de dependência, de burrice... Sim, porque sinto-me burra, inculta e paranóica...
Estou à porta daquele buraco, aquele de que toda a gente fala, mas que a maioria não conhece e quem conhece não o admite. Já dei o primeiro passo, mas assustei-me com a escuridão que me assolou o coração, e por isso, voltei para trás com a rapidez de um raio e a força de um furacão, mas, de vez em quando volto à entrada desse buraco e fico ali, especada, a olhar para a imensidão do nada que de lá se avista.
Sei que a minha situação, não é nada, comparada com a situação de muitas pessoas, e tenho consciência de que isso até é positivo para mim, e quando estou mesmo em baixo, mesmo à beirinha de cair dentro do buraco, penso nisso, penso em todas as pessoas que sei que estão numa situação complicada, e, por mais egoísta que esta ideia vos possa parecer, é aí que volto a mim, que respiro fundo e ergo a cabeça, porque se existem pessoas em posições bem piores que a minha, o que raios estou eu ali especada, a fazer?
Já alguma vez se sentiram como um animal em cativeiro, daqueles que só estão a engordar há espera de serem consumidos?
Pois... é assim que eu me sinto...

Se soubessem as voltas que a minha cabeça dá para arranjar força e motivação para não me deixar afogar por estes sentimentos de nulidade... Tenho picos diários e semanais, ora me sinto em baixo, recheada de pensamentos obscuros e negativos, ora sinto uma força gigante, que me eleva ao topo e me grita ao ouvido "Isto é só uma fase, vai passar, amanhã é outro dia, pensa positivo!!!"
Mas, na realidade, a única coisa que é capaz de me tirar da porta do buraco onde especo todos os dias, é o sorriso das minhas filhas quando chego à escola para as ir buscar, é o beijo do meu marido quando chega a casa depois do trabalho. Esses momentos, esse olhar, esse sorriso, esse beijo fazem milagres, fazem-me regressar a mim e fazem com que eu chegue ao fim do dia satisfeita, com a sensação de que o dia seguinte será melhor, porque a minha família é tudo o que eu preciso para viver, para ter esperança, para ser positiva, para ser Feliz!

A imperfeição com que vivemos, faz-nos imperfeitos e a nossa imperfeição, faz com vivamos na imperfeição. Mas, é essa mesma imperfeição que faz de nós seres humanos, pessoas, com todos os seus defeitos e qualidades, e, é essa imperfeição que faz a nossa vida tão perfeita!

Até breve...